5 de novembro de 2007

Referendar ou não referendar, eis a não-questão

A discussão sobre se o tratado constitucional europeu deve ou não ser referendado afigura-se-me como duplamente absurda, ie, ambos os lados têm uma posição algo absurda.

Parece-me evidente que Sócrates apenas fará referendo se sentir que não há qualquer risco de o perder. Nesse caso, avançará para o referendo auto-elogiando as suas qualidades de grande democrata.

Do lado do PS argumenta-se que o tratado é um texto complexo, pelo que os cidadãos teriam dificuldade em compreendê-lo, ainda que o tentassem ler. Argumenta-se que o parlamento é a sede própria para este tipo de decisão. Argumenta-se que o texto é diferente do anterior em aspectos fundamentais como - pasme-se - o hino e a bandeira (meros e inconsequentes símbolos).
Mas dizia eu que acho esta posição absurda, na medida em que o PS disse, durante a campanha legislativa, que levaria um tratado constitucional a referendo. Como o texto não se tornou mais complexo desde as legislativas, e como o PS não colocou diversos "mas" (tipo "referendamos, excepto se o texto for substancialmente alterado), torna-se evidente que está a dar o dito por não dito, isto é, que mentiu.

Eis pois a outra face do absurdo.
Sócrates ganhou eleições afirmando que não ia aumentar os impostos. Também aqui não disse "...excepto se a situação que encontrarmos...".
Sócrates ganhou eleições prometendo a criação de 150.000 postos de trabalho. Também aqui não disse que isso dependia do crescimento do PIB nacional ou europeu, ou das exportações, ou de qualquer outra coisa.
Agora, de repente, vejo alguma oposição muito satisfeita porque acham que Sócrates está encurralado, e que terá que fazer referendo ou admitir que mentiu. Porque é que desta vez isso lhe iria custar, pergunto?

1 comentário:

jose disse...

Acho que o principal receio do Sócrates em fazer o referendo é que a malta não ponha lá os pés, os votos. Em caso de referendo teremos o PSD, o CDS e o PS a favor e o BE e PCP contra. A este cenário acresce que o tema é tão simples e interessante para o povo como os livros do Lobo Antunes. Logo, mesmo a praia em Fevereiro ganha a este referendo.
E ao Sócrates ninguém encurrala pois o homem desata a berrar coisas que não têm nada a ver com o assunto e o caso morre ali.
Acabo de ver o ministro das finanças, a propósito do orçamento de estado, a dizer o contrário do que disse há menos de 8 horas no parlamento. Parece que foi "mal interpretado". Só se foi pelos microfones.
Perante isto, ainda achas pertinente questionar se este governo pode ser "encurralado"?