3 de outubro de 2006

Calimero

Carro com jovens é mandado parar pela GNR.
Carro com jovens ignora a ordem de paragem da GNR e foge porque, assumem, iam alcoolizados.
Carro com jovens é perseguido pela polícia.
Carro com jovens é baleado, ao fim de vinte minutos de perseguição (testemunho de um dos jovens); um dos jovens morre.
Temos pena.
Mas teríamos mais pena se, durante os 20 minutos de perseguição antes de começarem os tiros, o carro viesse a causar um acidente, matando inocentes.
Teríamos mais pena se, no carro dos jovens, seguisse o nosso filho.
Mas teríamos ainda mais pena se o nosso filho viesse num carro abalroado durante os 20 minutos de fuga dos jovens alcoolizados.

Nota: Vou deixar para os blogues de esquerda a discussão sobre se a GNR viu ou não uma arma dentro do carro (um dos jovens diz que «Se havia alguma arma, eu não reparei» o que é bem diferente de "Não, claro que não."), nem se abusaram dos meios ao seu dispor, nem se deviam ter continuado a perseguição até que o gasóleo acabasse ou se nem sequer a deviam ter iniciado (como já li algures). Fugiram à polícia, e fugiram durante mais de 20 minutos.

6 comentários:

Elise disse...

Impunidade total...

Gonçalinho disse...

Até lhes deviam dar crédito para o próximo delito. Não duas (conduzir sob influência do álcool e desobedecer à autoridade) sem três...

jose disse...

Vi agora a notícia na TV e parece-me claro o abuso policial.
Salvo melhores informações, não pode ser lícito às forças de autoridade disparar armas de fogo contra civis que apenas porque estes não obedecem a uma ordem de paragem.
Qualquer pessoa se pode assustar e fugir perante uma ordem da polícia. Conduzir alcoolizado, conduzir de modo perigoso e desobediência são crimes que não podem, de modo algum, ter como punição fuzilamento sumário.
A GNR baleou duas pessoas sem que, aparentemente, essas pessoas estivessem a colocar directamente as vidas dos guardas ou de outros cidadãos em perigo.
Se admitirmos este tipo de conduta às autoridades estamos a caminhar para um ambiente em que a nossa segurança estará ameaçada tanto pelos bandidos como pelos polícias.

Aves Raras disse...

jose, não sei se em termos técnicos há ou não abuso policial. Imagino que possa haver, sobretudo avaliado a posteriori.
Há uma diferença entre não obedecer a uma ordem de paragem e fugir durante 20 minutos (segundo comentário de um dos jovens).
"Fuzilamento sumário", dizes tu. Uma vez mais, suponho que seja um termo com um significado técnico que me ultrapassa. Para um leigo como eu, faz passar a imagem de que os jovens estavam ajoelhados no chão e algemados e levaram um tiro na cabeça, à queima-roupa. Não foi isso que aconteceu.
Duvido que em 20 minutos de perseguição não tenham sido colocadas em risco muitas vidas para lá das dos agentes e das dos jovens. Ou pararam nos semáforos à espera do sinal verde, e abrandaram quando havia pessoas por perto? Nota que a perseguição começou em Matosinhos e terminou no Porto, na zona da Foz. Do que sei, a Foz do Porto é uma espécie de 24 de Julho de Lisboa. Não me digas que pode haver uma perseguição na 24 de Julho à noite que não ponha em risco vidas...
A história de um jovem morto ao fim de uma perseguição policial de, repito, 20 minutos, será seguramente um factor mais dissuasor do que a façanha de ter conseguido fugir quando a polícia parou para reabastecer o carro...

Aves Raras disse...

A terceira é, seguramente, "wreckless driving". A quarta é, digo eu, porte de arma - "se havia alguma arma, eu não vi" - é, uma vez mais, uma frase que não me convence. Mas reafirmo-me leigo...

jose disse...

Não é pelo lao técnico que levo a questão. É pelo lado cívico. E rejeito fazer da discussão uma querela direita/esquerda.
Naturalmente, há muitos detalhes que desconhecemos. E aí o inquérito, desde que feito de modo correcto, é o passo adequado.
Mas a questã de fundo parece-me que a polícia deve ter muito cuidado antes de usar armas contra cidadãos, criminosos ou não.
Por muitas razões as quais só destaco uma: a polícia tem um poder que deve ser respeitado e não temido. A função da polícia torna-se perversa (produz efeitos contrários aos pretendidos) se o cidadão não se sentir seguro perto de "uma farda".
Agora estou cansado, tive um dia péssimo. Voltarei quando estiver 'melhor'.